Por sugestão de vários amigos, ao longo da
viagem registrarei alguns fatos, dicas, ... relatos que poderão auxiliar-me nas
próximas viagens, assim como aos amigos que decidirem empreender semelhante
projeto em suas férias.
O voo de Porto Alegre ao Rio foi sem novidades e
relativamente breve. No aeroporto Tom Jobim – o Galeão – destacava-se um atraso
de cerca de 1 hora para iniciar os procedimentos de embarque. Fazer o quê? Não
me estresso desnecessariamente com estes imprevistos totalmente além de nossa
ingerência. Ainda que não goste, “aciono” o plano B que, no caso, foi uma
agradável e 100% descompromissada passagem pelas lojas classificadas como duty free. Registrei no celular imagens
de alguns produtos – perfumes, principalmente – a fim de poder comparar com os
preços em Paris e verificar se valeria a pena compra-los na Europa ou na
próxima ida até Rivera ou Rio Branco, no Uruguai.
O tempo voou, mas ainda foi possível saborear um café antes
de embarcar. Registrei um belo por do sol no Rio e segui para a plataforma de
embarque. Fiz o check-in no totem indicado para tal, mas passei no balcão para
apresentar o cartão Smiles e, óbvio, ter as milhas computadas em minha conta. O
atendimento no balcão da Air France foi irretocável, de uma gentileza ímpar, o
que já concorre para esta nova etapa começar bem.
Entardecer no Rio de Janeiro
Nenhum problema ao passar pelo detector de metais, nada de
tirar sapatos e coisas assim (vi algumas pessoas precisando fazê-lo), assim
como foi igualmente simples e rápido o processo junto à Polícia Federal, sem
ouvir qualquer palavra além de “boa noite” e “boa viagem”.
Ao entrar na cabine, dois comissários cumprimentaram-me
sorridentes (aquele conhecido sorriso “de comissários”) em português e em
francês: foi meu primeiro “ bonsoir”.
Como o avião é muito grande, demora um pouco a partida da
aeronave. Imagine preencher algo em torno de 300 lugares a partir de uma fila
indiana, passando por aquele anda e para do corredor de qualquer avião, não
importando suas dimensões.
O serviço de bordo começou logo após a partida, sendo que
aos passageiros foi oferecido champanhe e a refeição solicitada: cerca de 12 na
classe executiva e duas na classe econômica. Não significa que você vai pedir
as 12 refeições, mas ser servido de uma delas, a qual pode ser solicitada
previamente via internet ou telefone.
O voo não foi lá essa calma e aparente ilha de tranquilidade
no ar – pareceu-me que mais da metade do tempo tivemos turbulência. Óbvio que
eu procurei tirar do pensamento que, anos antes, aquela mesma rota, na mesma
noite, horário e empresa aérea, abreviara a vida de quase três centenas de
brasileiros, franceses e passageiros das mais diversas nacionalidades. Mas para
não lembrar ao menos por um instante, só mesmo com muita sonolência. Aliás, os
meus fones (não os que a companhia disponibiliza, mas os que eu levo sempre
comigo) foram de uma utilidade inesperada: usei-os para abafar o ruído das
turbinas, estranhamente ruidoso em boa parte do tempo. Isso ajudou-me a dormir por
algum tempo, o suficiente para acordar e descobrir que estava na hora de tomar
o café da manhã, o qual veio acompanhado de frutas, um queijo magnífico (que eu
viria a descobrir ser um dos mais consumidos na Europa e é delicioso), iogurte,
suco de laranja, bombom, entre outros mimos.
No caminho para Budapeste, Hungria, Paris foi uma escala de
apenas duas horas. O processo no aeroporto junto às autoridades locais foi
extremamente simples. Claro que sempre pensamos sobre o que irão perguntar,
quais documentos pedirão e, o pior, em que língua se comunicarão conosco. No
aeroporto Charles de Gaulle fiquei pasmo: ao verificar meu passaporte e,
portanto, verificando minha procedência, a atendente desejou-me uma boa viagem
em português claro.
Aeroporto Charles de Gaulle
Achar o terminal neste aeroporto não se assemelha em nada a
caminhar em nosso Salgado Filho. Multiplique-o várias vezes em tamanho e
complexidade, acrescentando o fato de que nada se encontra em nosso bom
português e estará feito o estrago aos menos avisados, quase o meu caso
(risos). Tudo bem que eu não esperava encontrar um “campo de pouso” em Paris,
mas precisava ser tão complexo? Como estava apenas iniciando minha viagem,
escolhi o que julgo ser o melhor conselho do desenho Procurando Nemo para
quando se está perdido: “Continue a nadar, continue a nadar.”
Sem sair a esmo, dirigi-me a uma funcionária que, usando um
excelente inglês, informou-me como alcançar o terminal que eu procurava,
inclusive alertando-me para o tempo que eu empreenderia caminhando: algo em
torno de dez minutos, segundo ela. Muitas esteiras, várias vezes virando à
esquerda e à direita e, óbvio, seguindo as indicações, cheguei no terminal e,
muito importante, no portão correto. Por fim, percebi que foi mais fácil do que
presumira em um primeiro momento.
Pequeno atraso estava previsto, algo como 40 minutos.
Aproveitei para tomar um café e carregar a bateria do notebook. Juntos às áreas
de descanso, a administração disponibilizara várias tomadas para carregar
celulares, câmeras, eletrônicos em geral. Atenção para a voltagem local: 230
volts. Nossos aparelhos suportam sem problemas os 10 volts a mais, apenas
aquecendo ligeiramente os carregadores, mas nada que comprometa seu
funcionamento normal.
BUDAPEST - HUNGRIA
O voo até Budapest foi tranquilo, acima de paisagens lindas,
sem qualquer turbulência. Troquei de aeronave, mas ainda era um avião da Air
France, porém menor e mais simples em tudo, mas com a mesma gentileza no
atendimento a bordo.
Voando entre Paris e Budapest
Ao chegar a Budapest, fui para o hotel Marmara, que fica bem
pertinho de tudo. Meu critério de escolha principal foi: que ficasse próximo da
casa de meu amigão Silvio Severino. O Marmara é um hotel com conforto,
atendimento e serviços que fazem jus a cada estrela recebida nos sites como o
Trip Advisor. Aliás, não me hospedo em lugar algum sem consulta-lo. Ainda não
falhou! E espero que não aconteça, claro.
Tão logo tomei um revigorante banho, desci para encontrar
Silvio na recepção. Abraçamo-nos de uma forma tão sincera que só quem tem
grandes e queridos amigos entenderia. Durante meus três dias na capital da
Hungria, ele foi o melhor guia que alguém poderia desejar. Nunca poderei
agradecê-lo a altura do que fez por mim, largando seus afazeres para me fazer
sentir seguro e confortável em sua linda cidade.
Meu quarto no Hotel Marmara
Castelo de Buda*
*Não confundir com Siddhartha Gautama, o Buda. Budapest é, atualmente, a união de duas cidades: Buda e Pest. O castelo fica onde, até então, estava a cidade de Buda, por isso seu nome.
Na partida para Salzburg, um imprevisto: onde raios fica a
estação com o nome que consta no bilhete adquirido via Internet? Silvio,
visivelmente aflito, tentava obter alguma informação com os funcionários da
estação com a denominação que mais se assemelhava. Dirigimo-nos ao balcão de
informações turísticas e, usando seu conhecimento de húngaro, perguntou onde
ficava a dita estação. Era aquela mesma, mas o funcionário nada mais poderia
dizer porque aquele guichê destinava-se aos turistas que CHEGAVAM a Budapest,
não aos que partiam. Sim, não acreditamos no que acabáramos de ouvir, mas...
Correria. Em um segundo guichê, finalmente a informação desejada: o trem já se
encontrava na plataforma, poucos metros adiante. Porém, sairia nada menos que
20 minutos antes do horário indicado na passagem. Pensando que estivéssemos
equivocados, mostramos para o fiscal que – ou por não nos entender mas,
acredito, por total ignorância do motivo do erro – assumiu uma postura de
confusão perante nosso questionamento.
Mas ok, não importava: eu estava em
frente ao trem para meu destino na Áustria isso era tudo o que importava
naquele instante. Despedi-me do meu amigo, busquei meu assento, guardei a
bagagem (que quase excedeu as medidas do espaço para ela reservado) e decidi sentar-me.
Embarcando para Salzburg
Novo impasse: já havia alguém no meu lugar. Aparentando em torno de 25 anos, a
menina apontou a poltrona a seu lado – junto ao corredor – quando perguntei-lhe
sobre meu lugar, dando a entender que seria a janela. Repeti, desta vez
mencionando o número do assento que eu reservara: 85. Ela “fez a linha”
desentendida e mostrou-me em um pequeno display acima dos assentos a palavra
Salzburg e disse, em inglês, que “sim, este é o trem para Salzburg, aqui está.”
Bastou para que qualquer dúvida minha se dissipasse: ela realmente estava
jogando, tentando convencer-me que aquele era meu lugar ao partir do princípio
que o estrangeiro estaria completamente perdido e assustado. Abri minha bagagem
de mão, peguei minha passagem e deixei claro, também em inglês: “Minha passagem
indica que meu assento é o de número 85, junto à janela, não o do corredor. Por
gentileza, troquemos de lugar.” Ela ficou tão indignada que quis ainda me fazer
acreditar que não estava me entendendo (ahhhhh, tá). Como não movi um músculo, restou-lhe
pegar sua pequena bolsa, deixar o assento da janela, permitir-me passar e,
finalmente, sentar em SEU lugar. Ela desceria do trem cerca de uma hora mais
tarde.
Rumo a Salzburg
Minha viagem tomaria bem mais tempo: entre Budapeste e
Salzburg, algo em torno de 6 horas nos exigem um pouco de criatividade, seja
leitura, contemplação da paisagem (mais bonita quanto mais perto de Salzburg o
trem se encontra) ou, minha principal opção, digitar estes primeiros registros
da viagem.
Digitando o registro da viagem
Sobre o trem: como comprei os bilhetes ainda no Brasil, via
site Rail Europe, tudo estava determinado (o tal assento) e pago. Mas isso não
nos exime de ter o bilhete solicitado para conferência tantas vezes ao longo do
trajeto que eu acabei perdendo a conta. Todos os passageiros precisam – sejamos
sinceros – mostrar que pagaram para percorrer aquele trecho. Como o trem para
aqui e ali, mas não em todas as estações, eles entendem que precisam verificar
se não temos um não pagante a bordo. Não adiante se chatear: é uma daquelas
situações, como o atraso que mencionei antes, que não há absolutamente o que
fazer; é aceitar ou ficar amolado com tão pouco. E ninguém em sã consciência
vai comprometer a tranquilidade desta etapa da viagem por tal motivo. Aliás, é
melhor não tê-la comprometida por motivo algum.
O trem tem serviço de bordo, pago à parte, e que pode ser
usufruído de dois modos: aguardando o carrinho passar ou indo até o vagão
restaurante, o qual fica junto à 1ª classe. Os preços são bastante moderados e
o cardápio inclui desde batatas fritas industrializadas até refeições
completas. Apenas como parâmetro, um almoço fica em torno de 10 euros, um pouco
mais ou menos, dependendo da escolha. Expanda as opções com cafés, sucos, água
mineral e chá, garantindo assim que não enfrentará qualquer problemas com
relação à alimentação.
Saber quando descer é simples, pois os vagões contam com
monitores de lcd indicando o percurso e, claro, o anúncio em três línguas
(inglês inclusive), os quais sempre antecipam a próxima estação, dando bastante
tempo para o passageiro pegar sua bagagem e dirigir-se à saída.
SALZBURG - ÁUSTRIA
Três dias na cidade é muito pouco, exceto se não se tem a
menor noção da riqueza histórica do lugar: visitar tudo o que diz respeito a
Mozart e o tour A Noviça Rebelde são o top das atrações, claro, mas tem muito
mais para fazer nesta cidade encantadora. Eu afirmaria que um lugar imperdível
é o Palácio Mirabel com seu jardim. Flores e mais flores, esculturas, fontes
(que à noite ficam iluminadas)... se não existissem as máquinas digitais, aqui
eu gastaria incontáveis rolos de filme.
Palácio Mirabel com um dos seus tantos recantos
Em toda parte dos jardins, um recanto
que faz qualquer coração de pedra amolecer. Vim duas vezes e, na segunda,
trouxe comigo meus fones de ouvido e coloquei como trilha sonora alguns dos
trabalhos do mais famoso personagem da cidade: Wolfgang Amadeus Mozart. Sua
música combina, definitivamente, com a atmosfera de Salzburg. Vez que outra, ao
longo da seleção musical, entrava um Vivaldi, Strauss ou Tchaikovsky, mas eu
voltava sempre para o primeiro. Strauss foi a trilha perfeita em Budapeste,
notadamente sempre que eu caminhava ao longo do Danúbio. Nem foram tantas vezes
assim (risos), mas o suficiente para lembrar com carinho desta ainda recente
experiência.
Em Salzburg, tudo acontece no centro. Por isso, nada melhor
que hospedar-se ali mesmo. Meu hotel ficava “colado” em tudo o que importa – ao
menos para mim – o que me permitiu ir ao Mirabel após uma caminhada de apenas 4
ou 5 minutos, mais ou menos o mesmo tempo para chegar ao rio, à rua de compras,
etc e etc.
Para fazer os passeios, pode-se ir a pé, alugar carro, pegar
ônibus ou ir até a agência Panorama Tours, justamente quem faz o tour do famoso
musical. O melhor ainda é comprar o tour no próprio hotel – é possível adquirir
um voucher para quase tudo na recepção – e só aguardar alguém apanhá-lo no
horário marcado.
Como estava na Áustria, eu ouvi algumas vezes o famoso olei olei olei ihuuuu característica da
cultura austríaca. A bem da verdade, no tour da Noviça Rebelde eu pude ouvir a
guia cantando, e nos incentivando a fazer o mesmo, assim como ela própria
afirmando, no início do passeio (que você pode escolher com duração de 4 ou 8
horas), que ainda dava tempo de descer, pois naquele passeio se respira, se
canta, se fala, se vê, se ouve, se... (você entendeu a overdose?) o filme A
Noviça Rebelde. Ou seja, ou você é fã ou não vá. Nota: ao solicitar o passeio,
informe que você é falante de Língua Portuguesa, e eles disponibilizarão um
guia que fala nossa língua com perfeição.
Ônibus do tour da Noviça Rebelde - The Sound of Music
Fiz duas viagens com a Panorama Tours: esta mencionada
anteriormente e para a Alemanha, precisamente na região da Bavária. Isso me
permite afirmar que os guias são bem diferentes.
A guia do tour do filme é um
encanto de pessoa, extremamente gentil, sempre sorridente, excelente contadora
de histórias e paciente fotógrafa dos viajantes solitários (risos). Seu nome é
Naomi, nascida na Inglaterra, mas apaixonada por Salzburg, cidade na qual
cresceu e que não abandona por nada (palavras dela).
O guia da viagem até a
Alemanha, de nome Peter, era o mau humor personalizado. Como alguém que, além
de visivelmente contrariado por ali estar, não vai trabalhar com uma roçadeira,
descontando toda a sua frustração com a vida no campo, bem distante de qualquer
ser humano que não tem culpa dele ter acordado naquela manhã. E estou muito
propenso a afirmar que desconhecia itens disponíveis em qualquer supermercado
do Brasil e da Áustria ou, ainda, da Alemanha: desodorante e lâmina de barbear.
Se compará-lo com a Naomi, a qual se mostrava sempre preocupada com a
satisfação dos passageiros e, claro, com a segurança de cada um, o Peter deixou
na Alemanha um casal que não voltou no horário. Sério, na A-le-ma-nha!!! Tudo
bem que eu também não simpatizo com atrasos, exceto se o “atrasado” provar, com
fotos, que encontrou a Julie Andrews no alto de uma montanha, mas deixar em
outro país...? Apenas disse que eram regras da empresa. Depois, tentava
justificar-se dizendo que poderiam voltar facilmente usando ônibus que
interligam os países. Eu, hein!
Já que enveredei por este caminho tortuoso, aproveito para
falar das “furadas” até o momento e a razão de terem acontecido. Por “furada”,
entenda-se algo que eu poderia ter passado sem experimentar, ok?
A primeira foi um restaurante em Salzburg, o qual anunciava
“tudo o que você puder comer por 10 euros.” Não que eu estivesse com vontade de
comer por duas ou três pessoas, mas o anúncio me fez pensar em variedade, não
em quantidade. Ledo engano: as pessoas que ali estiveram antes comeram tudo ou
você classificaria um buffet com
cerca de oito pratos diferentes (inclua entre os oito as saladas, que eram
quatro) como farto, rico, variado,... não sei qual adjetivo usar. Como eu já
havia pedido uma bebida antes de dirigir-me ao espartano buffet (este adjetivo
é para não usar nada grosseiro), assumi que faria bem para minha dieta. Nas
refeições seguintes, passei a fazer o que todo mundo faz: olha antes o menu ou
o buffet e só depois pede qualquer bebida.
Outra furada também diz respeito a restaurantes... Decidi
que queria comida japonesa. Numa galeria daquelas tão chiques que a gente não
sabe onde colocar as mãos, se no bolso ou na frente da boca, de modo a
disfarçar o assombro quanto aos preços, encontrei um restaurante que estava
quase lotado, sinal de preço bom ou comida deliciosa. Não foi uma combinação de
ambos, mas prefiro que o segundo prevaleça na impossibilidade do desejado
combo. E onde está a furada? Quando estava lendo o menu, estranhei o nome de
alguns pratos. Tendo vivido no Japão, sabia que aquelas denominações nenhuma
relação guardavam com a sua gastronomia. Um segundo olhar no cardápio e
concluí: o tal restaurante japonês, assim anunciado na fachada, servia
igualmente comida chinesa, coreana, tailandesa,... e não tinha um único japonês
em sua equipe, pois cumprimentei a garçonete em japonês e ela ficou me olhando
totalmente atônita, perdida mesmo. E olhe que eu só disse “com licença, boa
noite.” Adivinhe quem administra o restaurante, quem cozinha, quem serve, bla
bla bla? Uma família chinesa. Eles estão por toda a parte, e não apenas como
turistas em Salzburg. A comida estava muito boa, mas em Porto Alegre ainda tem
restaurantes japoneses bem melhores. Estranho: foi como pagar por um dvd
original e assistir a uma gravação pirata; ficou claro?
Furada suprema: visita a uma mina de sal. Vi um folheto que
disponibilizava a tal visita e uma outra, que já revelo. Como nem todo mundo
fala inglês em toda a parte, aponta daqui e dali, acabei comprando um passeio.
Em lugar de ir a uma caverna de gelo, parei na minha de sal. Ok, ao menos
adentrei no Planeta, mas o critério de escolha do passeio não foi este. E por
que foi uma furada? Porque o guia da mina de sal era um alemão com uma
expressão no rosto tão gentil quanto o Hannibal Lector usando aquela singela
máscara. Pegou? Aí você imagine descer com este “sir” a uma profundida de quase
meio quilômetro, usando um macacão não exatamente perfumado (irc), na mais
completa escuridão na maior parte do trajeto, ouvindo-o falar em alemão durante
quase 90 minutos.
Eu não estaria sorrindo se esta foto fosse o registro pós-passeio na minha (risos)
A língua alemã, ouvida em uma mina escura, úmida, vestindo um
uniforme que todo mundo recebe sem qualquer higiene entre as trocas de
visitantes, sem a possibilidade de sair antes, desperta alguns medos que a gente
nem sabe que tem. Sério; eu vi muita gente sorrindo nervosa nos raros momentos
de alguma claridade. E como eu entendia alguma coisa? Havia um radinho, tipo
aqueles que algumas pessoas chegam ao ouvido para escutar suas músicas ou
notícias, que traduzia tudo o que ele dizia simultaneamente. Ao sair da mina,
devolvi o rádio e quase disparei correndo. Parece exagero? Experimente na sua
vinda à Alemanha. Fiquei com uma foto minha tirada lá dentro e que traz o
endereço para compartilhar com os amigos. Eu não mandaria um amigo para lá, de
forma alguma.
Na sexta-feira, 27 de julho, deixei o hotel Mozart (no check
out recebi um cd com músicas de, claro, Mozart) Embarquei no trem da Rail Jet que
me deixaria na Suíça, mais precisamente em Zurich, cerca de seis horas depois.
Viajar de trem pode ser bom, para quem tem paciência em ficar sentado,
distraindo-se apenas com a paisagem ou com toda a sorte de entretenimento que
trouxer a bordo. Não esquecer que os trens dispõem de tomadas para ligar algum
eletrônico. Por isso, considerar trazer consigo um ou mais dvds para assistir
no seu notebook não é má ideia, obviamente com fones individuais, pois o
vizinho não é obrigado a escutar coisa alguma senão seus próprios pensamentos
(os dele, claro).
Sobre a paisagem: é magnífica. Uma sucessão de campos,
montanhas, rios, vilarejos e cidades nos permitem fazer as pazes com a
poltrona. Nota: a Rail Jet colocou-me, sem que eu solicitasse, no assento da
janela (ao menos até aqui), o que foi ótimo. Certamente porque adquiri os
bilhetes (via internet) cerca de quatro meses antes.
A Áustria nos reserva paisagens lindas como esta
Mas e sobre os dias anteriores, em Salzburg e na Bavária,
mais precisamente na Alemanha?
Meu amigo Silvio Severino, que além de exímio fotógrafo
mostrou-se um conhecedor do continente europeu, decretou algo inquestionável: a
Europa “não é uma coisa só.” Explico, ainda que possa parecer óbvio: cada país
é bastante diferente do outro no que diz respeito ao modo de dirigir-se às
pessoas, principalmente como tratam os visitantes.
Em Budapeste eu percebi um
desejo muito evidente de manter o turista confortável, contente, satisfeito
mesmo. Pude perceber que são um pouco demorados em algumas coisas simples do
cotidiano como, por exemplo, o simples fato de despachar uma correspondência,
algo que presenciei ao lado do amigo Silvio. Mais demorado ainda foi a simples
compra de um cartão telefônico, que demorou – juro – cerca de cinco minutos
entre pagar e retirar o mesmo. Parece que a atendente teve um problema no
sistema tão logo paguei e, portanto, não podia liberar o cartão. Também notei
uma indisfarçável irritação de um garçom que atendia o Silvio quando ele
informou que alguém equivocou-se em seu pedido. O garçom insistia que AQUELE,
era o doce pedido, mas meu amigo lhe disse que não, recebendo a sobremesa
correta apenas depois de “saborear” uma cara feia. Mas qual lugar do mundo está
blindado contra o mau humor?
BERN - SUÍÇA
Chegar na capital foi quase
intimidante. Apenas alguns minutos na estação e eu seria roubado caso não fosse
brasileiro e, como tal, com doutorado em malandragem alheia. Assim sendo,
percebi que uma mulher, cerca de 20 anos, estava próxima além do necessário da
mochila que eu colocara às minhas costas. A bem da verdade, um anjo da guarda
travou minha mala de rodinhas por um décimo de segundo e foi neste momento que
eu percebera a presença da meliante suíça, justamente quando deixei de caminhar
e ela precisou dar um pulo para o lado. Um outro suíço, com aquela cara de
gente boa (vai saber se “gente boa” tem cara), olhou para a engraçadinha de
forma severa, o que em nada resultou, pois percebi que ela se aproximava das
janelas do trem e olha para dentro. Não precisa ser o tal brasileiro, doutor em
malandragem, para intuir que ela procurava por objetos deixados nas poltronas.
E antes que você pense... não, não tem ninguém verificando o entra e sai dos
vagões.
Bern, cidade cujo centro histórico foi tombado como
patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO
Antes de sair da estação, em uma loja me informaram que eu
não precisava de taxi, pois o hotel ficava duas ruas adiante. Pareceu muito
fácil, mas consegui perder-me, pois fica difícil entender onde começa a rua, a
calçada, etc, em alguns lugares. Estranho e perigoso para nós, pois é preciso
ficar atento nos primeiros momentos no centro ou, quando percebe, está
caminhando onde é destinado aos automóveis.
Pedi ajuda três vezes em uma única quadra. Nada consegui com
a primeira tentativa, pois consegui perguntar para turistas tão “bem
localizados” quando eu mesmo. O segundo, um morador local, tentou realmente
auxiliar-me, mas não conseguia entender onde ficava o hotel, embora pelo
endereço garantia que estávamos bem perto. Por fim, uma menina em uma cadeira
de rodas simplesmente LEVOU-ME até o Best Western, que realmente era logo
adiante mas, como quase tudo nesta região central, era um tanto discreto. Deus
a abençoe, gentil menina.
Meu hotel em Bern: Best Western
A recepção no hotel, que não é um 5 estrelas, foi digna de
um resort: sorriso sincero do recepcionista, bebida e lanchinho de boas vindas,
bicicleta solicitada por ocasião da reserva já disponibilizada, wi-fi de alta
velocidade, blablabla. O quarto, com aquele tapete azul escuro e cheio de
detalhes característico dos hotéis da rede em que já me hospedei, era
confortável, com tudo o que precisava para carregar o notebook, câmera e
celular: plugues que combinavam com o padrão brasileiro. Aliás, diferentes
possibilidades de plugues nas paredes dispensavam a necessidade de adaptadores.
Tomei um banho de imersão bem quente, com um sabonete fabuloso disponibilizado
pelo hotel. Saí para dar um volta pelas redondezas, um pouco receoso com o uso
de minha câmera (nada discreta), pois havia policiais por todo o lado. A
presença excessiva da polícia indica a sua necessidade, não? Pois eis que em
Budapeste e em Salzburg eu quase não os via, pois eram bem discretos. Em Bern,
eles querem se fazer notar e ponto final.
Na mesma noite conversei com a Gabi e a Geni via Skype, com
vídeo. As duas mostraram-se extremamente alegres quando minha imagem apareceu
na tela no Brasil e eu, não menos contente, quando as via aqui na Suíça. E viva
a tecnologia.
Na manhã seguinte, peguei a bicicleta e saí a pedalar pela
cidade. Se bem que, logo no início, levei a bike para passear, pois as placas,
sem qualquer tradução, davam a entender que os ciclistas deveriam estar cientes
do que elas indicavam. E as ciclovias seguras? Ou você teria a ousadia de
pedalar entre trens, automóveis e motos, ao perceber que dita ciclovia nada
mais era do que um espaço estreito demarcado com listras amarelas no centro das
avenidas, depois à esquerda, à direita, para então sumir. E como é proibido
pedalar nas calçadas, eu só o fazia quando percebia estar bem seguro. Por isso,
deixei o centro e fui para os bairros, passando pelo Jardim Botânico e,
finalmente, chegando ao famoso rio que tem suas águas límpidas em tom
esverdeado. Cenário fotográfico alcançado, muitas fotos tirei. Detalhe: para
chegar neste lugar, acessei uma pequena rua rodeada de plátanos ou alguma
árvore parecida, cujo declive faria qualquer entusiasta de montanhas russas
vibrar. Freios passaram no teste! E as pernas é que foram igualmente testadas
na volta. Cheguei no hotel suando em bicas...
(CONTINUARÁ)








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