segunda-feira, 30 de julho de 2012


Por sugestão de vários amigos, ao longo da viagem registrarei alguns fatos, dicas, ... relatos que poderão auxiliar-me nas próximas viagens, assim como aos amigos que decidirem empreender semelhante projeto em suas férias.

O voo de Porto Alegre ao Rio foi sem novidades e relativamente breve. No aeroporto Tom Jobim – o Galeão – destacava-se um atraso de cerca de 1 hora para iniciar os procedimentos de embarque. Fazer o quê? Não me estresso desnecessariamente com estes imprevistos totalmente além de nossa ingerência. Ainda que não goste, “aciono” o plano B que, no caso, foi uma agradável e 100% descompromissada passagem pelas lojas classificadas como duty free. Registrei no celular imagens de alguns produtos – perfumes, principalmente – a fim de poder comparar com os preços em Paris e verificar se valeria a pena compra-los na Europa ou na próxima ida até Rivera ou Rio Branco, no Uruguai.

O tempo voou, mas ainda foi possível saborear um café antes de embarcar. Registrei um belo por do sol no Rio e segui para a plataforma de embarque. Fiz o check-in no totem indicado para tal, mas passei no balcão para apresentar o cartão Smiles e, óbvio, ter as milhas computadas em minha conta. O atendimento no balcão da Air France foi irretocável, de uma gentileza ímpar, o que já concorre para esta nova etapa começar bem.

Entardecer no Rio de Janeiro

Nenhum problema ao passar pelo detector de metais, nada de tirar sapatos e coisas assim (vi algumas pessoas precisando fazê-lo), assim como foi igualmente simples e rápido o processo junto à Polícia Federal, sem ouvir qualquer palavra além de “boa noite” e “boa viagem”.

Ao entrar na cabine, dois comissários cumprimentaram-me sorridentes (aquele conhecido sorriso “de comissários”) em português e em francês: foi meu primeiro “ bonsoir”.

Como o avião é muito grande, demora um pouco a partida da aeronave. Imagine preencher algo em torno de 300 lugares a partir de uma fila indiana, passando por aquele anda e para do corredor de qualquer avião, não importando suas dimensões. 

O serviço de bordo começou logo após a partida, sendo que aos passageiros foi oferecido champanhe e a refeição solicitada: cerca de 12 na classe executiva e duas na classe econômica. Não significa que você vai pedir as 12 refeições, mas ser servido de uma delas, a qual pode ser solicitada previamente via internet ou telefone.

O voo não foi lá essa calma e aparente ilha de tranquilidade no ar – pareceu-me que mais da metade do tempo tivemos turbulência. Óbvio que eu procurei tirar do pensamento que, anos antes, aquela mesma rota, na mesma noite, horário e empresa aérea, abreviara a vida de quase três centenas de brasileiros, franceses e passageiros das mais diversas nacionalidades. Mas para não lembrar ao menos por um instante, só mesmo com muita sonolência. Aliás, os meus fones (não os que a companhia disponibiliza, mas os que eu levo sempre comigo) foram de uma utilidade inesperada: usei-os para abafar o ruído das turbinas, estranhamente ruidoso em boa parte do tempo. Isso ajudou-me a dormir por algum tempo, o suficiente para acordar e descobrir que estava na hora de tomar o café da manhã, o qual veio acompanhado de frutas, um queijo magnífico (que eu viria a descobrir ser um dos mais consumidos na Europa e é delicioso), iogurte, suco de laranja, bombom, entre outros mimos.

No caminho para Budapeste, Hungria, Paris foi uma escala de apenas duas horas. O processo no aeroporto junto às autoridades locais foi extremamente simples. Claro que sempre pensamos sobre o que irão perguntar, quais documentos pedirão e, o pior, em que língua se comunicarão conosco. No aeroporto Charles de Gaulle fiquei pasmo: ao verificar meu passaporte e, portanto, verificando minha procedência, a atendente desejou-me uma boa viagem em português claro.

Aeroporto Charles de Gaulle

Achar o terminal neste aeroporto não se assemelha em nada a caminhar em nosso Salgado Filho. Multiplique-o várias vezes em tamanho e complexidade, acrescentando o fato de que nada se encontra em nosso bom português e estará feito o estrago aos menos avisados, quase o meu caso (risos). Tudo bem que eu não esperava encontrar um “campo de pouso” em Paris, mas precisava ser tão complexo? Como estava apenas iniciando minha viagem, escolhi o que julgo ser o melhor conselho do desenho Procurando Nemo para quando se está perdido: “Continue a nadar, continue a nadar.”

Sem sair a esmo, dirigi-me a uma funcionária que, usando um excelente inglês, informou-me como alcançar o terminal que eu procurava, inclusive alertando-me para o tempo que eu empreenderia caminhando: algo em torno de dez minutos, segundo ela. Muitas esteiras, várias vezes virando à esquerda e à direita e, óbvio, seguindo as indicações, cheguei no terminal e, muito importante, no portão correto. Por fim, percebi que foi mais fácil do que presumira em um primeiro momento.

Pequeno atraso estava previsto, algo como 40 minutos. Aproveitei para tomar um café e carregar a bateria do notebook. Juntos às áreas de descanso, a administração disponibilizara várias tomadas para carregar celulares, câmeras, eletrônicos em geral. Atenção para a voltagem local: 230 volts. Nossos aparelhos suportam sem problemas os 10 volts a mais, apenas aquecendo ligeiramente os carregadores, mas nada que comprometa seu funcionamento normal.  

BUDAPEST - HUNGRIA

O voo até Budapest foi tranquilo, acima de paisagens lindas, sem qualquer turbulência. Troquei de aeronave, mas ainda era um avião da Air France, porém menor e mais simples em tudo, mas com a mesma gentileza no atendimento a bordo.

Voando entre Paris e Budapest

Ao chegar a Budapest, fui para o hotel Marmara, que fica bem pertinho de tudo. Meu critério de escolha principal foi: que ficasse próximo da casa de meu amigão Silvio Severino. O Marmara é um hotel com conforto, atendimento e serviços que fazem jus a cada estrela recebida nos sites como o Trip Advisor. Aliás, não me hospedo em lugar algum sem consulta-lo. Ainda não falhou! E espero que não aconteça, claro.

Tão logo tomei um revigorante banho, desci para encontrar Silvio na recepção. Abraçamo-nos de uma forma tão sincera que só quem tem grandes e queridos amigos entenderia. Durante meus três dias na capital da Hungria, ele foi o melhor guia que alguém poderia desejar. Nunca poderei agradecê-lo a altura do que fez por mim, largando seus afazeres para me fazer sentir seguro e confortável em sua linda cidade.

Meu quarto no Hotel Marmara

Castelo de Buda*

*Não confundir com Siddhartha Gautama, o Buda. Budapest é, atualmente, a união de duas cidades: Buda e Pest. O castelo fica onde, até então, estava a cidade de Buda, por isso seu nome.

Na partida para Salzburg, um imprevisto: onde raios fica a estação com o nome que consta no bilhete adquirido via Internet? Silvio, visivelmente aflito, tentava obter alguma informação com os funcionários da estação com a denominação que mais se assemelhava. Dirigimo-nos ao balcão de informações turísticas e, usando seu conhecimento de húngaro, perguntou onde ficava a dita estação. Era aquela mesma, mas o funcionário nada mais poderia dizer porque aquele guichê destinava-se aos turistas que CHEGAVAM a Budapest, não aos que partiam. Sim, não acreditamos no que acabáramos de ouvir, mas... Correria. Em um segundo guichê, finalmente a informação desejada: o trem já se encontrava na plataforma, poucos metros adiante. Porém, sairia nada menos que 20 minutos antes do horário indicado na passagem. Pensando que estivéssemos equivocados, mostramos para o fiscal que – ou por não nos entender mas, acredito, por total ignorância do motivo do erro – assumiu uma postura de confusão perante nosso questionamento. 

Mas ok, não importava: eu estava em frente ao trem para meu destino na Áustria isso era tudo o que importava naquele instante. Despedi-me do meu amigo, busquei meu assento, guardei a bagagem (que quase excedeu as medidas do espaço para ela reservado) e decidi sentar-me. 

Embarcando para Salzburg

Novo impasse: já havia alguém no meu lugar. Aparentando em torno de 25 anos, a menina apontou a poltrona a seu lado – junto ao corredor – quando perguntei-lhe sobre meu lugar, dando a entender que seria a janela. Repeti, desta vez mencionando o número do assento que eu reservara: 85. Ela “fez a linha” desentendida e mostrou-me em um pequeno display acima dos assentos a palavra Salzburg e disse, em inglês, que “sim, este é o trem para Salzburg, aqui está.” Bastou para que qualquer dúvida minha se dissipasse: ela realmente estava jogando, tentando convencer-me que aquele era meu lugar ao partir do princípio que o estrangeiro estaria completamente perdido e assustado. Abri minha bagagem de mão, peguei minha passagem e deixei claro, também em inglês: “Minha passagem indica que meu assento é o de número 85, junto à janela, não o do corredor. Por gentileza, troquemos de lugar.” Ela ficou tão indignada que quis ainda me fazer acreditar que não estava me entendendo (ahhhhh, tá). Como não movi um músculo, restou-lhe pegar sua pequena bolsa, deixar o assento da janela, permitir-me passar e, finalmente, sentar em SEU lugar. Ela desceria do trem cerca de uma hora mais tarde.

Rumo a Salzburg

Minha viagem tomaria bem mais tempo: entre Budapeste e Salzburg, algo em torno de 6 horas nos exigem um pouco de criatividade, seja leitura, contemplação da paisagem (mais bonita quanto mais perto de Salzburg o trem se encontra) ou, minha principal opção, digitar estes primeiros registros da viagem.

Digitando o registro da viagem

Sobre o trem: como comprei os bilhetes ainda no Brasil, via site Rail Europe, tudo estava determinado (o tal assento) e pago. Mas isso não nos exime de ter o bilhete solicitado para conferência tantas vezes ao longo do trajeto que eu acabei perdendo a conta. Todos os passageiros precisam – sejamos sinceros – mostrar que pagaram para percorrer aquele trecho. Como o trem para aqui e ali, mas não em todas as estações, eles entendem que precisam verificar se não temos um não pagante a bordo. Não adiante se chatear: é uma daquelas situações, como o atraso que mencionei antes, que não há absolutamente o que fazer; é aceitar ou ficar amolado com tão pouco. E ninguém em sã consciência vai comprometer a tranquilidade desta etapa da viagem por tal motivo. Aliás, é melhor não tê-la comprometida por motivo algum.

O trem tem serviço de bordo, pago à parte, e que pode ser usufruído de dois modos: aguardando o carrinho passar ou indo até o vagão restaurante, o qual fica junto à 1ª classe. Os preços são bastante moderados e o cardápio inclui desde batatas fritas industrializadas até refeições completas. Apenas como parâmetro, um almoço fica em torno de 10 euros, um pouco mais ou menos, dependendo da escolha. Expanda as opções com cafés, sucos, água mineral e chá, garantindo assim que não enfrentará qualquer problemas com relação à alimentação.

Saber quando descer é simples, pois os vagões contam com monitores de lcd indicando o percurso e, claro, o anúncio em três línguas (inglês inclusive), os quais sempre antecipam a próxima estação, dando bastante tempo para o passageiro pegar sua bagagem e dirigir-se à saída.  

SALZBURG - ÁUSTRIA

Três dias na cidade é muito pouco, exceto se não se tem a menor noção da riqueza histórica do lugar: visitar tudo o que diz respeito a Mozart e o tour A Noviça Rebelde são o top das atrações, claro, mas tem muito mais para fazer nesta cidade encantadora. Eu afirmaria que um lugar imperdível é o Palácio Mirabel com seu jardim. Flores e mais flores, esculturas, fontes (que à noite ficam iluminadas)... se não existissem as máquinas digitais, aqui eu gastaria incontáveis rolos de filme. 

Palácio Mirabel com um dos seus tantos recantos

Em toda parte dos jardins, um recanto que faz qualquer coração de pedra amolecer. Vim duas vezes e, na segunda, trouxe comigo meus fones de ouvido e coloquei como trilha sonora alguns dos trabalhos do mais famoso personagem da cidade: Wolfgang Amadeus Mozart. Sua música combina, definitivamente, com a atmosfera de Salzburg. Vez que outra, ao longo da seleção musical, entrava um Vivaldi, Strauss ou Tchaikovsky, mas eu voltava sempre para o primeiro. Strauss foi a trilha perfeita em Budapeste, notadamente sempre que eu caminhava ao longo do Danúbio. Nem foram tantas vezes assim (risos), mas o suficiente para lembrar com carinho desta ainda recente experiência.

Em Salzburg, tudo acontece no centro. Por isso, nada melhor que hospedar-se ali mesmo. Meu hotel ficava “colado” em tudo o que importa – ao menos para mim – o que me permitiu ir ao Mirabel após uma caminhada de apenas 4 ou 5 minutos, mais ou menos o mesmo tempo para chegar ao rio, à rua de compras, etc e etc.

Para fazer os passeios, pode-se ir a pé, alugar carro, pegar ônibus ou ir até a agência Panorama Tours, justamente quem faz o tour do famoso musical. O melhor ainda é comprar o tour no próprio hotel – é possível adquirir um voucher para quase tudo na recepção – e só aguardar alguém apanhá-lo no horário marcado.

Como estava na Áustria, eu ouvi algumas vezes o famoso olei olei olei ihuuuu característica da cultura austríaca. A bem da verdade, no tour da Noviça Rebelde eu pude ouvir a guia cantando, e nos incentivando a fazer o mesmo, assim como ela própria afirmando, no início do passeio (que você pode escolher com duração de 4 ou 8 horas), que ainda dava tempo de descer, pois naquele passeio se respira, se canta, se fala, se vê, se ouve, se... (você entendeu a overdose?) o filme A Noviça Rebelde. Ou seja, ou você é fã ou não vá. Nota: ao solicitar o passeio, informe que você é falante de Língua Portuguesa, e eles disponibilizarão um guia que fala nossa língua com perfeição.

Ônibus do tour da Noviça Rebelde - The Sound of Music

Fiz duas viagens com a Panorama Tours: esta mencionada anteriormente e para a Alemanha, precisamente na região da Bavária. Isso me permite afirmar que os guias são bem diferentes. 

A guia do tour do filme é um encanto de pessoa, extremamente gentil, sempre sorridente, excelente contadora de histórias e paciente fotógrafa dos viajantes solitários (risos). Seu nome é Naomi, nascida na Inglaterra, mas apaixonada por Salzburg, cidade na qual cresceu e que não abandona por nada (palavras dela). 

O guia da viagem até a Alemanha, de nome Peter, era o mau humor personalizado. Como alguém que, além de visivelmente contrariado por ali estar, não vai trabalhar com uma roçadeira, descontando toda a sua frustração com a vida no campo, bem distante de qualquer ser humano que não tem culpa dele ter acordado naquela manhã. E estou muito propenso a afirmar que desconhecia itens disponíveis em qualquer supermercado do Brasil e da Áustria ou, ainda, da Alemanha: desodorante e lâmina de barbear. Se compará-lo com a Naomi, a qual se mostrava sempre preocupada com a satisfação dos passageiros e, claro, com a segurança de cada um, o Peter deixou na Alemanha um casal que não voltou no horário. Sério, na A-le-ma-nha!!! Tudo bem que eu também não simpatizo com atrasos, exceto se o “atrasado” provar, com fotos, que encontrou a Julie Andrews no alto de uma montanha, mas deixar em outro país...? Apenas disse que eram regras da empresa. Depois, tentava justificar-se dizendo que poderiam voltar facilmente usando ônibus que interligam os países. Eu, hein!

Já que enveredei por este caminho tortuoso, aproveito para falar das “furadas” até o momento e a razão de terem acontecido. Por “furada”, entenda-se algo que eu poderia ter passado sem experimentar, ok?

A primeira foi um restaurante em Salzburg, o qual anunciava “tudo o que você puder comer por 10 euros.” Não que eu estivesse com vontade de comer por duas ou três pessoas, mas o anúncio me fez pensar em variedade, não em quantidade. Ledo engano: as pessoas que ali estiveram antes comeram tudo ou você classificaria um buffet com cerca de oito pratos diferentes (inclua entre os oito as saladas, que eram quatro) como farto, rico, variado,... não sei qual adjetivo usar. Como eu já havia pedido uma bebida antes de dirigir-me ao espartano buffet (este adjetivo é para não usar nada grosseiro), assumi que faria bem para minha dieta. Nas refeições seguintes, passei a fazer o que todo mundo faz: olha antes o menu ou o buffet e só depois pede qualquer bebida.

Outra furada também diz respeito a restaurantes... Decidi que queria comida japonesa. Numa galeria daquelas tão chiques que a gente não sabe onde colocar as mãos, se no bolso ou na frente da boca, de modo a disfarçar o assombro quanto aos preços, encontrei um restaurante que estava quase lotado, sinal de preço bom ou comida deliciosa. Não foi uma combinação de ambos, mas prefiro que o segundo prevaleça na impossibilidade do desejado combo. E onde está a furada? Quando estava lendo o menu, estranhei o nome de alguns pratos. Tendo vivido no Japão, sabia que aquelas denominações nenhuma relação guardavam com a sua gastronomia. Um segundo olhar no cardápio e concluí: o tal restaurante japonês, assim anunciado na fachada, servia igualmente comida chinesa, coreana, tailandesa,... e não tinha um único japonês em sua equipe, pois cumprimentei a garçonete em japonês e ela ficou me olhando totalmente atônita, perdida mesmo. E olhe que eu só disse “com licença, boa noite.” Adivinhe quem administra o restaurante, quem cozinha, quem serve, bla bla bla? Uma família chinesa. Eles estão por toda a parte, e não apenas como turistas em Salzburg. A comida estava muito boa, mas em Porto Alegre ainda tem restaurantes japoneses bem melhores. Estranho: foi como pagar por um dvd original e assistir a uma gravação pirata; ficou claro?

Furada suprema: visita a uma mina de sal. Vi um folheto que disponibilizava a tal visita e uma outra, que já revelo. Como nem todo mundo fala inglês em toda a parte, aponta daqui e dali, acabei comprando um passeio. Em lugar de ir a uma caverna de gelo, parei na minha de sal. Ok, ao menos adentrei no Planeta, mas o critério de escolha do passeio não foi este. E por que foi uma furada? Porque o guia da mina de sal era um alemão com uma expressão no rosto tão gentil quanto o Hannibal Lector usando aquela singela máscara. Pegou? Aí você imagine descer com este “sir” a uma profundida de quase meio quilômetro, usando um macacão não exatamente perfumado (irc), na mais completa escuridão na maior parte do trajeto, ouvindo-o falar em alemão durante quase 90 minutos. 

Eu não estaria sorrindo se esta foto fosse o registro pós-passeio na minha (risos)

A língua alemã, ouvida em uma mina escura, úmida, vestindo um uniforme que todo mundo recebe sem qualquer higiene entre as trocas de visitantes, sem a possibilidade de sair antes, desperta alguns medos que a gente nem sabe que tem. Sério; eu vi muita gente sorrindo nervosa nos raros momentos de alguma claridade. E como eu entendia alguma coisa? Havia um radinho, tipo aqueles que algumas pessoas chegam ao ouvido para escutar suas músicas ou notícias, que traduzia tudo o que ele dizia simultaneamente. Ao sair da mina, devolvi o rádio e quase disparei correndo. Parece exagero? Experimente na sua vinda à Alemanha. Fiquei com uma foto minha tirada lá dentro e que traz o endereço para compartilhar com os amigos. Eu não mandaria um amigo para lá, de forma alguma.

Na sexta-feira, 27 de julho, deixei o hotel Mozart (no check out recebi um cd com músicas de, claro, Mozart) Embarquei no trem da Rail Jet que me deixaria na Suíça, mais precisamente em Zurich, cerca de seis horas depois. Viajar de trem pode ser bom, para quem tem paciência em ficar sentado, distraindo-se apenas com a paisagem ou com toda a sorte de entretenimento que trouxer a bordo. Não esquecer que os trens dispõem de tomadas para ligar algum eletrônico. Por isso, considerar trazer consigo um ou mais dvds para assistir no seu notebook não é má ideia, obviamente com fones individuais, pois o vizinho não é obrigado a escutar coisa alguma senão seus próprios pensamentos (os dele, claro). 

Sobre a paisagem: é magnífica. Uma sucessão de campos, montanhas, rios, vilarejos e cidades nos permitem fazer as pazes com a poltrona. Nota: a Rail Jet colocou-me, sem que eu solicitasse, no assento da janela (ao menos até aqui), o que foi ótimo. Certamente porque adquiri os bilhetes (via internet) cerca de quatro meses antes.

A Áustria nos reserva paisagens lindas como esta

Mas e sobre os dias anteriores, em Salzburg e na Bavária, mais precisamente na Alemanha?
Meu amigo Silvio Severino, que além de exímio fotógrafo mostrou-se um conhecedor do continente europeu, decretou algo inquestionável: a Europa “não é uma coisa só.” Explico, ainda que possa parecer óbvio: cada país é bastante diferente do outro no que diz respeito ao modo de dirigir-se às pessoas, principalmente como tratam os visitantes. 

Em Budapeste eu percebi um desejo muito evidente de manter o turista confortável, contente, satisfeito mesmo. Pude perceber que são um pouco demorados em algumas coisas simples do cotidiano como, por exemplo, o simples fato de despachar uma correspondência, algo que presenciei ao lado do amigo Silvio. Mais demorado ainda foi a simples compra de um cartão telefônico, que demorou – juro – cerca de cinco minutos entre pagar e retirar o mesmo. Parece que a atendente teve um problema no sistema tão logo paguei e, portanto, não podia liberar o cartão. Também notei uma indisfarçável irritação de um garçom que atendia o Silvio quando ele informou que alguém equivocou-se em seu pedido. O garçom insistia que AQUELE, era o doce pedido, mas meu amigo lhe disse que não, recebendo a sobremesa correta apenas depois de “saborear” uma cara feia. Mas qual lugar do mundo está blindado contra o mau humor?

BERN - SUÍÇA

Chegar na capital foi quase intimidante. Apenas alguns minutos na estação e eu seria roubado caso não fosse brasileiro e, como tal, com doutorado em malandragem alheia. Assim sendo, percebi que uma mulher, cerca de 20 anos, estava próxima além do necessário da mochila que eu colocara às minhas costas. A bem da verdade, um anjo da guarda travou minha mala de rodinhas por um décimo de segundo e foi neste momento que eu percebera a presença da meliante suíça, justamente quando deixei de caminhar e ela precisou dar um pulo para o lado. Um outro suíço, com aquela cara de gente boa (vai saber se “gente boa” tem cara), olhou para a engraçadinha de forma severa, o que em nada resultou, pois percebi que ela se aproximava das janelas do trem e olha para dentro. Não precisa ser o tal brasileiro, doutor em malandragem, para intuir que ela procurava por objetos deixados nas poltronas. E antes que você pense... não, não tem ninguém verificando o entra e sai dos vagões.

Bern, cidade cujo centro histórico foi tombado como 
patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO

Antes de sair da estação, em uma loja me informaram que eu não precisava de taxi, pois o hotel ficava duas ruas adiante. Pareceu muito fácil, mas consegui perder-me, pois fica difícil entender onde começa a rua, a calçada, etc, em alguns lugares. Estranho e perigoso para nós, pois é preciso ficar atento nos primeiros momentos no centro ou, quando percebe, está caminhando onde é destinado aos automóveis.

Pedi ajuda três vezes em uma única quadra. Nada consegui com a primeira tentativa, pois consegui perguntar para turistas tão “bem localizados” quando eu mesmo. O segundo, um morador local, tentou realmente auxiliar-me, mas não conseguia entender onde ficava o hotel, embora pelo endereço garantia que estávamos bem perto. Por fim, uma menina em uma cadeira de rodas simplesmente LEVOU-ME até o Best Western, que realmente era logo adiante mas, como quase tudo nesta região central, era um tanto discreto. Deus a abençoe, gentil menina.

Meu hotel em Bern: Best Western


A recepção no hotel, que não é um 5 estrelas, foi digna de um resort: sorriso sincero do recepcionista, bebida e lanchinho de boas vindas, bicicleta solicitada por ocasião da reserva já disponibilizada, wi-fi de alta velocidade, blablabla. O quarto, com aquele tapete azul escuro e cheio de detalhes característico dos hotéis da rede em que já me hospedei, era confortável, com tudo o que precisava para carregar o notebook, câmera e celular: plugues que combinavam com o padrão brasileiro. Aliás, diferentes possibilidades de plugues nas paredes dispensavam a necessidade de adaptadores. Tomei um banho de imersão bem quente, com um sabonete fabuloso disponibilizado pelo hotel. Saí para dar um volta pelas redondezas, um pouco receoso com o uso de minha câmera (nada discreta), pois havia policiais por todo o lado. A presença excessiva da polícia indica a sua necessidade, não? Pois eis que em Budapeste e em Salzburg eu quase não os via, pois eram bem discretos. Em Bern, eles querem se fazer notar e ponto final.

Na mesma noite conversei com a Gabi e a Geni via Skype, com vídeo. As duas mostraram-se extremamente alegres quando minha imagem apareceu na tela no Brasil e eu, não menos contente, quando as via aqui na Suíça. E viva a tecnologia.

Na manhã seguinte, peguei a bicicleta e saí a pedalar pela cidade. Se bem que, logo no início, levei a bike para passear, pois as placas, sem qualquer tradução, davam a entender que os ciclistas deveriam estar cientes do que elas indicavam. E as ciclovias seguras? Ou você teria a ousadia de pedalar entre trens, automóveis e motos, ao perceber que dita ciclovia nada mais era do que um espaço estreito demarcado com listras amarelas no centro das avenidas, depois à esquerda, à direita, para então sumir. E como é proibido pedalar nas calçadas, eu só o fazia quando percebia estar bem seguro. Por isso, deixei o centro e fui para os bairros, passando pelo Jardim Botânico e, finalmente, chegando ao famoso rio que tem suas águas límpidas em tom esverdeado. Cenário fotográfico alcançado, muitas fotos tirei. Detalhe: para chegar neste lugar, acessei uma pequena rua rodeada de plátanos ou alguma árvore parecida, cujo declive faria qualquer entusiasta de montanhas russas vibrar. Freios passaram no teste! E as pernas é que foram igualmente testadas na volta. Cheguei no hotel suando em bicas...

(CONTINUARÁ)










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